Críticos discutem os rumos da arquitetura brasileira no balanço

13/05/2012 11:05
Análise
Críticos discutem os rumos da arquitetura brasileira no balanço
da década de 2000

De que adianta fazer previsões se não nos vangloriarmos quando elas dão certo? Há dez anos, ao finalizar o texto de abertura da edição sobre a década de 1990, escrevi que esperávamos “o próximo milênio tão otimistas quanto a revista inglesa The Economist, que mesmo diante da possível crise norte-americana, e, por extensão, global, prevê um novo milagre para a economia brasileira”. Bem, vamos pular as flechas que passaram longe do círculo e ir direto ao alvo: os números da década que passou são animadores. O Produto Interno Bruto brasileiro pulou de 777 bilhões para 2 trilhões de dólares, e a renda per capita foi de 4,8 mil para 10 mil dólares. Mas os algarismos positivos não se refletem com a mesma intensidade no universo arquitetônico. Os escritórios estão movimentados, mas o decênio não foi memorável. O que temos são bons exemplos isolados, destacados nas páginas desta edição. A questão se agrava porque, em geral, o arquiteto brasileiro é mal formado, mal informado e - a pá de cal - desarticulado, não dá a mínima para as organizações de classe que, se fortalecidas, ajudariam a mudar de patamar a categoria e a produção. Como? Através do incremento no número de concursos públicos para contratação de projetos.

Não foram tão poucos os certames do período, é preciso reconhecer. Houve demanda para edifícios culturais, como as sedes do Grupo Corpo (2001), da Orquestra Sinfônica de Belo Horizonte (2005), do Teatro Municipal de Londrina (2007) e do Teatro Castro Alves, em Salvador (2010). Outros concursos se voltaram para os edifícios institucionais, como o Centro Judiciário de Curitiba (2006), o Paço Municipal de Hortolândia, SP (2006), as sedes do Iphan (2006) e do Capes (2007), o Centro de Pesquisa da Petrobrás (2008). O Sesc paulista inovou seu receituário ao escolher por concurso, pela primeira vez, o projeto de uma de suas unidades, no caso a da cidade de Guarulhos (2009) - e a entidade gostou tanto do processo que promete voltar a adotá-lo. Algumas disputas incluíram até a participação de estrangeiros, entre elas a do MIS (2009) e a do Liceu Francês François Mitterrand (2009). Mas, no fundo, mesmo com essa soma razoável, é pequeno o número de projetos levados a cabo, contando-se entre as exceções o Centro Cultural de Araras (2003), a sede da Petrobrás no Espírito Santo (2005) e o edifício do Sebrae em Brasília (2008). Foram quase meia centena de disputas noticiadas no período, com cerca de 10% delas realizadas (outras 25% ainda têm chance de execução). A grande maioria, 65%, naufragou.

Os concursos de urbanismo também ficaram pelo caminho: Bairro Novo (2004), largo da Batata (2002) e Minhocão (2006). As ações nessa área, na década passada, foram tímidas, marcadas pelas iniciativas isoladas de ONGs, como aconteceu na reurbanização das ruas Oscar Freire e Amauri, ambas em São Paulo. Algumas discussões que começaram agora ficam como expectativas para a próxima década - a Nova Luz (2010), em São Paulo, e o Porto Olímpico (2010), no Rio, são exemplos. De fato, passa pelas entidades de classe o aprimoramento da modalidade dos concursos, para conseguir viabilizar um número maior de projetos implantados. Apostar todas as fichas na criação do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), como se ele fosse a mão de cartas salvadora, foi um erro coletivo. O poder será maior e mais bem exercido com uma entidade exclusiva dos arquitetos, mas a chave, repito, é o aperfeiçoamento do mecanismo dos concursos. A primeira notícia sobre o CAU foi publicada em 2002, e talvez ainda haja uma década de trabalho para a situação dos concursos começar a se cristalizar.

Outros elementos, além do CAU, estiveram na ordem do dia. Um dos principais foi a atuação de estrangeiros no país. Se no começo da década ela já incomodou a comunidade arquitetônica local - com nomes como Jean Nouvel, Álvaro Siza e Christian de Portzamparc -, o posterior aquecimento da economia brasileira em contraponto com a crise mundial fez chover arquiteto graúdo (e miúdo) em nossos lotes. Já temos encaminhados, por exemplo, projetos de Herzog & De Meuron, Calatrava, Diller Scofidio, Norman Foster e Daniel Libeskind. E os dois grandes eventos esportivos da próxima década aumentaram a cobiça por trabalho: metade dos projetos de estádios da Copa de 2014 tem a presença de profissionais de fora. Grosso modo, a classe reagiu aos forasteiros com um descontentamento quase provinciano, e descabido, já que o fato é inevitável diante do crescimento do país. O negócio é aproveitar o momento para valorizar a profissão, aumentar honorários e sofisticar o debate arquitetônico.

Passagem do bastão

A década confirma tendências surgidas no período anterior, mas, por outro lado, houve uma espécie de passagem de bastão no universo arquitetônico. Na seleção dos principais trabalhos do período feita por críticos a pedido de PROJETO DESIGN não aparece, por exemplo, nenhum projeto de Oscar Niemeyer ou Paulo Mendes da Rocha (os dois detentores do Pritzker garantiram sua presença no time titular dos anos 1990 com o museu de Niterói e o Mube, respectivamente). Para os críticos, entretanto, um dos maiores destaques da década de 2000 foi João Filgueiras Lima. Ele não só teve uma obra selecionada, como ela recebeu metade dos votos como a mais importante do período, dividindo o pódio com Álvaro Siza (um empate que acabou exigindo o voto de minerva deste editor para Siza). No caso de Lelé, a escolha ecoa bem mais o conjunto da obra do que um edifício isolado, como o projeto do português (curiosamente, os dois arquitetos disputaram o prêmio máximo da Trienal de Lisboa, em dezembro, também vencida por Siza). Nas respostas que deu a nossa enquete, André Corrêa do Lago mencionou que Lelé deveria ser o terceiro brasileiro a receber o Pritzker.

Outro mestre que teve obra destacada pelos críticos foi Eduardo de Almeida. Na seleção estão, um pouco mais jovens, Roberto Mac Fadden e Joan Villà. Um degrau abaixo na escada da idade, vemos Gustavo Penna; outro lance e encontramos Mauro Munhoz. Contudo, quem marca o período é a “geração de Sevilha” - de Angelo Bucci, Álvaro Puntoni, MMBB, Una, Andrade Morettin, Mario Biselli, Mario Figueroa, Alexandre Delijaicov, entre outros. Eles chegam ao final da década tendo entre 40 e 50 anos, em vias de atingir a maturidade profissional. Das dez principais obras publicadas nesta edição, 30% saíram de suas pranchetas (e vamos bater de novo na velha tecla: esse número seria ainda maior se alguns concursos vencidos por trabalhos dessa geração tivessem sido implantados).

A década foi também de consagração para arquitetos como Isay Weinfeld e Marcio Kogan, que atingem o ápice profissional em projetos que migram dos interiores para a média escala. A jovem geração mineira, como previ há dez anos, não decepcionou, tornando-se o segundo pólo de arquitetura contemporânea do país. As grandes surpresas foram o Triptyque, em São Paulo, lançando peças novas para o debate local, e Thiago Bernardes, no Rio de Janeiro, cuja passagem da escala residencial para os espaços maiores e públicos deve ser observada atentamente.

O holofote nos “sevilhanos” ilumina outra constatação: a arquitetura moderna brasileira continua a ser o paradigma de quase toda a produção. Diz muito o título Ainda Moderno?, dado a uma exposição em Paris sobre a arquitetura brasileira recente, com curadoria de Lauro Cavalcanti e Corrêa do Lago. Quem não tem o modernismo como ponto de partida, o tem como contraposição. Sintomas dessa valorização são a atuação do Docomomo na discussão constante desse legado, a organização de acervos importantes, como a nova sede da Casa de Lucio Costa, no Rio de Janeiro, ou ainda o número significativo de publicações a respeito. O mestre carioca, por exemplo, tanto foi objeto da reedição da compilação de textos realizada por Alberto Xavier, em Lucio Costa: sobre arquitetura (Uniritter, 2007), quanto de novos livros, como Carradas de razão: Lucio Costa e a arquitetura moderna brasileira (Loyola/PUC Rio, 2007), de Otavio Leonídio, e Lucio Costa (Cosac Naify, 2001), de Guilherme Wisnik.

Mundo editorial

A menção à Cosac Naify é um bom gancho para entrar na seara das letras: essa editora foi responsável por sofisticar o mercado de livros de arquitetura na década passada. Além de traduzir clássicos estrangeiros como Vincent Scully Jr., David Underwood, Robert Venturi, Alan Colquhoun, Le Corbusier, Kate Nesbitt, Rafael Moneo e Piet Mondrian, entre outros, reeditou memoráveis volumes nacionais, como Depoimentos de uma geração, de Alberto Xavier, compilou textos de Lina Bo Bardi e Gregori Warchavchik e produziu números monográficos importantes do escritório Brasil Arquitetura, de Paulo Mendes da Rocha e de Marcos Acayaba. A nota preocupante: no final da década, a Cosac Naify diminuiu o ritmo de novas publicações, quase abandonando o tema.

A Romano Guerra realizou igualmente um trabalho de alto nível: Rino Levi: arquitetura e cidade (2001), de Renato Anelli, situa-se entre bons trabalhos de pesquisa que resultaram em publicações. Sem menosprezar as áreas técnicas, podemos afirmar que também entre os temas de pesquisa dos acadêmicos brasileiros reina o modernismo. Aí estão Arquitetura nova - de Artigas aos mutirões, de Pedro Fiori Arantes (Editora 34, 2002); Grupo Arquitetura Nova - Flávio Império, Rodrigo Lefèvre e Sérgio Ferro, de Ana Paula Koury (Romano Guerra, 2003); Artigas e Cascaldi, de Juliana Suzuki (Ateliê Cultural, 2003); e Modernidade verde: jardins de Burle Marx, de Guilherme Dourado (Senac/Edusp, 2009). Em continuidade à década anterior, o mercado editorial teve um boom de monografias, principalmente da segunda geração de modernos, tais como João Walter Toscano (Unesp/Instituto Takano, 2002), Siegbert Zanettini (Edusp, 2002), Jorge Wilheim (DBA, 2003), Índio da Costa (Casa da Palavra, 2003), Decio Tozzi (D’Auria, 2005), Eduardo de Almeida (Romano Guerra, 2006), David Libeskind (Romano Guerra, 2007), Sidonio Porto (PW, 2009) e Marcelo Fragelli (Romano Guerra, 2010). Os mais jovens Isay Weinfeld (Bei, 2008), Sylvio de Podestá (AP Cultural, 2008) e Biselli & Katchborian (Romano Guerra, 2007) também ocuparam as páginas de livros. Mencionem-se ainda alguns guias de arquitetura, como os do Rio de Janeiro, organizados por Jorge Czajkowski, e os da editora carioca Viana & Mosley.

Dois extremos pontuaram o mercado editorial de arquitetura na década passada. De um lado, publicações de fôlego, no que se refere a importância do texto, dimensões dos livros ou pretensões, como os dois volumes de Arquitetura Brasil 500 anos (2002 e 2008), organizados por Roberto Montezuma, Moderno e brasileiro, de Lauro Cavalcanti (Jorge Zahar, 2006) e Pós-Brasília - rumos da arquitetura brasileira (Perspectiva/Fapesp, 2003), de Maria Alice Junqueira Bastos. Na outra ponta estão os numerosos volumes despretensiosos, temáticos ou portfólios, publicados por editoras como C4 e J.J. Carol.

A arquitetura brasileira também ganhou espaço em edições no exterior, como na monografia de Botti Rubin (The Images Publishing Group, 2002), nos livros sobre Paulo Mendes da Rocha na Suíça (Niggi, 2001) e Estados Unidos (Rizzoli, 2007). A revista espanhola 2G dedicou um número a Mendes da Rocha, outro a Lina Bo Bardi e outro a Vilanova Artigas. Dois interessantes trabalhos sobre arquitetura brasileira foram publicados na Inglaterra (Phaidon, 2005) e nos Estados Unidos (Reaktion Books, 2009).

Oscar Niemeyer - que atravessou a década para completar 103 anos - foi alvo de dezenas de publicações, a maioria dispensável. Mas o maior herói/vilão da arquitetura brasileira também se aventurou no mercado editorial: lançou a revista Nosso Caminho, que acaba de chegar ao sétimo número. Outra revista lançada no período foi a MDC, de Minas Gerais. PROJETO DESIGN ganhou um moderno projeto gráfico, implantado em abril de 2004, e voltou a publicar, em 2003, os trabalhos de graduação que participam do concurso Opera Prima. Para finalizar o universo das mídias, a década de 2000 é marcada pelo início da cobertura na web. Além do portal Arcoweb, merece destaque a atuação do Vitruvius, uma plataforma indispensável no âmbito acadêmico. É digno de nota o trabalho do ViverCidades, mesmo que no fim do decênio esteja interrompido. Os blogs ainda ficaram abaixo das expectativas, com pouca coisa interessante. Contudo, vale destacar o trabalho recente de Ana Luiza Nobre, com seu Porto 12, e Fernando Lara, com o Parede de Meia.

Datas e partidas

O livro dos tombos ratificou a valorização do moderno, inscrevendo, em diferentes instâncias, a sede paulista do IAB (Rino Levi), o Conjunto Nacional (David Libeskind), edifícios de Lina Bo Bardi, como o Masp, e de Niemeyer como o Copan. Aliás, parte das obras-primas de Niemeyer foram restauradas no período: Pampulha (reinaugurada em 2006), os palácios da Alvorada (2006) e do Planalto (2010), este último dentro das comemorações do cinquentenário do Distrito Federal. Outras efemérides marcaram a década: os centenários de Rino Levi (2001), Lucio Costa (2002), Franz Heep (2002), Jorge Machado Moreira (2004), Oswaldo Bratke (2007), Affonso Eduardo Reidy (2009) - personagem do documentário A construção da utopia (2009), de Ana Maria Magalhães - e... Oscar Niemeyer, que foi o único a comemorá-lo em vida.

Os que se foram formam uma lista enorme, a começar pelos contemporâneos do grande mestre, Carmem Portinho (1903-2001) e Alcides da Rocha Miranda (1909-2001), e seus colaboradores, como Milton Ramos (1929-2008). O Rio perdeu ainda Francisco Bolonha (1923-2006) e os Bernardes - Sérgio (1919-2002) e Cláudio (1949-2001), pai e filho. Zanine Caldas (1919-2001), figura ímpar da arquitetura brasileira, também faleceu. A década levou os dois ex-sócios de Rino Levi: Luiz Roberto Carvalho Franco (1928-2001) e Roberto Cerqueira César (1917-2003). A arquitetura gaúcha perdeu dois batalhadores pela categoria, Demétrio Ribeiro (1916-2003) e Carlos Maximiliano Fayet (1930-2007). Minas Gerais ficou desfalcada de dois profissionais da geração pós-moderna: Éolo Maia (1942-2002) e Álvaro Hardy (1942-2005). Pernambuco perdeu Vital Pessoa de Melo (1936-2010) e o casal número um da arquitetura-e-interiores nacional: Acácio Gil Borsoi (1924-2009) e Janete Costa (1932-2008). O Paraná ficou sem Rubens Meister (1922-2009). Em São Paulo, o número de profissionais de destaque que morreram na década passada é grande. Entre eles, uma turma grande da velha guarda: Ernest Mange (1922-2005), Oswaldo Correa Gonçalves (1917-2005), Roberto Tibau (1924-2003) e David Ottoni (1927-2004). A arquitetura hospitalar perdeu Jarbas Karman (1917-2008). O universo da Asbea ficou sem o convívio de Elizabeth Goldfarb (1953-2004) e Roberto Amá (1959-2006), sem contar Jaci Hargreaves (1931-2008), ex-sócio de Edson Musa. E faleceram nomes importantes do brutalismo paulista, como Telésforo Cristofani (1929-2002), Alfredo Paesani (1931-2010), Miguel Juliano (1928-2009) e Joaquim Guedes (1932-2008).

Entidades e prêmios

Um dos fatos positivos que marcaram a década foi a criação da Escola da Cidade (no fim de 2001), em São Paulo, uma faculdade de arquitetura gerida por arquitetos. Os eventos esportivos - o Pan do Rio em 2007 e os preparativos para a Copa de 2014 e para a Olimpíada de 2016 - também movimentaram o debate arquitetônico, no qual é importante salientar o papel fundamental do IAB/RJ, liderado por Sérgio Magalhães, uma prova de como é necessário que a classe tenha dirigentes de qualidade. No âmbito das entidades, destaque para a gestão de Jaime Lerner na presidência da União internacional de Arquitetos entre 2002 e 2005. A categoria foi ainda liderada por Haroldo Pinheiro, Demetre Anastassakis, Gilberto Belleza, João Suplicy Neto e Gilson Paranhos, no IAB/DN, e Henrique Cambiaghi, Jorge Königsberger e Ronaldo Rezende, na Asbea.

A polêmica acerca da eleição no IAB/ SP em 2007 teve reflexos na qualidade da 8ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo (2009), e culminou na pior exposição já montada, colocando em risco o futuro da mostra. Quem viu a questão com irônico bom humor foi a revista inglesa Architectural Review, para quem a ruindade da bienal traz embutida uma boa notícia: a próxima, quando houver, só poderá ser melhor. Verdade seja dita: da 5ª até a 7ª BIA, a qualidade do evento foi caindo. Mas na 8ª foi queda livre. Boas exposições ocuparam os salões do Museu da Casa Brasileira e do Instituto Tomie Ohtake, ambos em São Paulo, e do Centro de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro. A exposição Des-continuidade, com a arquitetura do Norte de Portugal, também foi memorável, assim como as diversas mostras da Mira, no Rio de Janeiro, que ocorreu em paralelo ao 17º Congresso Brasileiro de Arquitetos (o 18º, de 2006, foi em Goiânia, e o 19º, 2010, no Recife).

A mostra brasileira na Bienal de Veneza foi irregular, com destaque para a produção nacional ligada ao âmbito social (2002 e 2010) e trabalhos contemporâneos (2004 e 2010). São Paulo e a abertura de espaço para que os leigos falassem sobre arquitetura foram os destaques de 2006 e 2008, respectivamente. Rosa Kliass recebeu dois prêmios internacionais, na Bienal de Quito (2004) e na Bienal Ibero-Americana (2006), e Niemeyer foi laureado com o Imperial Praemium, do Japão, em 2004. Mas a premiação mais importante da década foi, sem dúvida, o Pritzker para Paulo Mendes da Rocha, em 2006. No design, o período assinala a consagração internacional dos irmãos Campana e de outros profissionais brasileiros, com destaques seguidos no IF Design Award.

Polêmicas

A legislação paulistana deu o que falar, seja por causa da mudança do zoneamento, seja pela cruzada contra a poluição visual alimentada pela Lei Cidade Limpa. A criação do Estatuto das Cidades e do Ministério das Cidades também alimentaram o debate. A crise energética esteve na mesma ordem do dia em que entrou o tema da sustentabilidade, às vezes encarado com seriedade, às vezes transformado em peça oca de marketing.

Niemeyer, sempre ele, enfrentou diversas polêmicas: a construção do centro administrativo de Minas Gerais, com Sylvio Podestá escrevendo uma carta em que insinuava que Niemeyer deveria se aposentar; o corte na marquise do parque Ibirapuera, em São Paulo, barrado pelos órgãos do patrimônio; o memorial dos presidentes em Brasília e, para não alongar o assunto, o parque de Boa Viagem, no Recife. Aliás, a longevidade do arquiteto - ainda produzindo - é um dos fatos espantosos do final do decênio.

Quais minhas previsões para a próxima década? Não vou falar nada sobre Niemeyer. Mas arrisco dizer que a NBR 15.575 vai mudar o cenário de atuação dos arquitetos, no que diz respeito a responsabilidades; os estrangeiros vão projetar muito por aqui; a “geração de Sevilha” atingirá o ápice de sua produção; a arquitetura vai entrar na pauta da grande mídia; e a Olimpíada do Rio vai contribuir positivamente para mudar o panorama da cidade. Um Pritzker para Lelé? Quem viver verá.

Texto de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 371 Janeiro de 2011